NOVELO, UM NOVO ELO
NOVELO , espetáculo em
cartaz em sua quarta temporada em São Paulo (Viga Espaço Cênico; de 28/10 a
18/12/2011) é - sem dúvida - um novo elo ou a busca por ele.
O tricotar que se
presencia , ao entrar na sala de espetáculos, não é apenas cênico, é também verborrágico (não num sentido
pejorativo) , e o verbo primeiro vem de um olhar (escrever) feminino da habilidosa dramaturga Nanna de
Castro, que enovelou nessa trama teatral o que há de mais sincero, amplo e
sensível no relacionamento familiar de cinco Homens com H maiúsculo,
representados pelos cinco talentosos ACE: Atores Cinco Estrelas.
A história é realmente
tocante, não há como ficar impassível diante de fatos tão dolorosos que
encurralaram os cinco irmãos que (no
presente) se encontram na sala de espera de um hospital público, prestes a se
certificar de que o homem (internado na UTI) é (ou não) o pai que os abandonou
num momento delicado e crítico de suas vidas, ou seja, na
infância-adolescência.
O novo elo que os envolve
certamente se tece pela dor, mas também pelo amor propiciado pela mãe (já
ausente) que os ensinou a tricotar, a se
entreter , a se atrever , a se amar e a se envolver com as interessantes
histórias contadas durante os
momentos-aulas,
em que tudo parecia fazer sentido, as personalidades engatinhavam, mas já insinuavam seus pruridos.
Belas e fragmentadas
cenas se revezam expressando presente e passado, indubitavelmente guiadas pelo
profundo texto de Nanna, alinhavado pela direção delicada de Zé Henrique de
Paula e executada com maestria pelos apreciáveis homens-garotos Herbert Bianchi
(João), Flávio Barollo (Cláudio), Alexandre Freitas (Maurício), Fábio Cadôr (Zeca) e Flávio Baiocchi (Mauro).
Há que se parabenizar
toda a equipe que compõe a Ficha Técnica, sem a qual seria impraticável a
execução de um trabalho artístico tão primoroso.
E por falar em primor,
vale citar dois momentos:
1º) aquele em que os irmãos acabam maquiando um ao
outro sem o estereótipo que associaria a cena a um banal e simplista olhar
homossexual, mas (pelo contrário) aponta
para algo ingênuo, infantil e lúdico ;
2º) aquele em que se comenta
criticamente como os leigos (de observação estreita e simplista)
classificam/limitam o que vem a ser um ator. São realmente momentos imperativos (acrescidos de outros,
claro) nos quais se pode avaliar a beleza do conjunto: texto, direção, atuação
e cumplicidade dos artistas em cena,
principalmente conectados, enovelados à atenta plateia.
Nanna de Castro
provavelmente conseguiu êxito nesta dramaturgia, já que - como revelou ao Jô Soares (entrevista:
06/09/2010) - teve seus primeiros passos na arte de escrever, parodiando os
grandes cronistas, através da conhecida, influenciável e indispensável coleção
PARA GOSTAR DE LER. Portanto, tendo esse primeiro significativo impulso,
presenteia os atores e espectadores com esse Novelo que nos leva a afirmar
(sem titubear) que tal espetáculo foi
feito para Gostar de Entreter e de se Ver.
Que a Companhia cumpra a
sua temporada com louvor e estenda-a (por favor!) a fim de que os Deuses do
Teatro providenciem ao elenco e ao público mais uma (ou muitas outras
possibilidades) de admirável
representação-reflexão de divertido (embora doído) novo elo.
LUIZ LÍBANO - 29/11/11 -
(Luiz Líbano é
professor, escritor, cantor, resenhista e muitos outros istas)
