quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Novelo, uma radiografia sobre o homem contemporâneo

por Maurício Mellone

Em sua quarta temporada (a estreia foi no ano passado), Novelo, em cartaz no Viga Espaço Cênico, surpreende de imediato. O público entra na sala de exibição e os cinco atores já estão em cena; detalhe: todos com agulhas e linha tricotando (literalmente) cachecol, echarpe e blusa. E melhor ainda, com desenvoltura e firmeza!
Só depois de todos se acomodarem e apagadas as luzes da plateia é que a peça de Nanna de Castro tem prosseguimento. São cinco irmãos que aprenderam a tricotar com a mãe e estão no saguão de um hospital público depois de serem chamados porque um homem foi espancado e levado à UTI; esse homem, que tinha no bolso da calça os telefones dos rapazes, pode ser o pai que os abandonou há mais de 20 anos.
Com este mote, a autora põe a nu o homem contemporâneo, discutindo questões e conflitos do universo masculino, por meio da relação entre os cinco irmãos. Sem linearidade, a trama alterna momentos daquela família, desde o nascimento do caçula quando o pai resolve deixá-los, o crescimento dos meninos em diversas fases da vida, a ligação deles com a mãe, até a maturidade e o momento em que eles se reencontram no hospital para reconhecerem o moribundo.

Maurício, João, Cláudio, Zeca e Mauro: irmãos com personalidades bem distintas
O público com o desenrolar das cenas vai reconhecendo a personalidade de cada garoto e como eles se tornaram adultos: Mauro (Flavio Baiocchi) o mais velho que aos 12 anos foi obrigado a se tornar o homem da casa, com todas as responsabilidades depois da morte precoce da mãe; Maurício-Cicinho (Alexandre Freitas), perturbado com o abandono, vira um homem inseguro e viciado; João (Herbert Bianchi), gay que procura superar os traumas com estudo e sucesso profissional; Zeca (Fábio Cadôr) moleque arruaceiro que vira o machão e empresário bem-sucedido e por último Cláudio-Cacau (Flavio Barollo), sensível e único que não conheceu o pai, torna-se ator.
Para melhor desenvolver a trama, o diretor Zé Henrique de Paula também criou o cenário; quatro cadeiras e apenas placas transparentes que servem tanto para situarem o ambiente hospitalar como para delimitarem o espaço cênico. Cenas de infância e adolescência dos personagens acontecem só com a mudança da disposição das cadeiras.
Nanna de Castro desfia um Novelo emocional daqueles cinco irmãos. A cena final é catártica, com cada um deles colocando para fora seus fantasmas e traumas guardados até então. Foi difícil conter as lágrimas, já que me identifiquei muito com história retratada no palco (somos cinco irmãos e uma irmã e meu pai faleceu com todos nós ainda crianças). Vivenciar aquele Novelo emocional-familiar sendo desenrolado, desfiado, desfeito contribuiu para que o meu novelo (como de muitos espectadores) também o fosse!

FAVO DO MELLONE
http://www.favodomellone.com.br/resenha/novelo-uma-radiografia-sobre-o-homem-contemporaneo/

APLAUSO BRASIL
http://colunistas.ig.com.br/aplausobrasil/2011/11/01/novelo-faz-radiografia-sobre-o-homem-contemporaneo/

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