quarta-feira, 30 de novembro de 2011

NOVELO, UM NOVO ELO - por Luiz Líbano


NOVELO, UM NOVO ELO

NOVELO , espetáculo em cartaz em sua quarta temporada em São Paulo (Viga Espaço Cênico; de 28/10 a 18/12/2011) é - sem dúvida - um novo elo ou a busca por ele.
     O tricotar que se presencia , ao entrar na sala de espetáculos, não é apenas cênico, é também verborrágico (não num sentido pejorativo) , e o verbo primeiro vem de um olhar (escrever)  feminino da habilidosa dramaturga Nanna de Castro, que enovelou nessa trama teatral o que há de mais sincero, amplo e sensível no relacionamento familiar de cinco Homens com H maiúsculo, representados pelos cinco talentosos ACE: Atores Cinco Estrelas.
     A história é realmente tocante, não há como ficar impassível diante de fatos tão dolorosos que encurralaram  os cinco irmãos que (no presente) se encontram na sala de espera de um hospital público, prestes a se certificar de que o homem (internado na UTI) é (ou não) o pai que os abandonou num momento delicado e crítico de suas vidas, ou seja, na infância-adolescência.
     O novo elo que os envolve certamente se tece pela dor, mas também pelo amor propiciado pela mãe (já ausente) que os ensinou a tricotar, a se  entreter , a se atrever , a se amar e a se envolver com as interessantes histórias contadas durante os momentos-aulas, em que tudo parecia fazer sentido, as personalidades engatinhavam, mas  já insinuavam seus pruridos.
Belas e fragmentadas cenas se revezam expressando presente e passado, indubitavelmente guiadas pelo profundo texto de Nanna, alinhavado pela direção delicada de Zé Henrique de Paula e executada com maestria pelos apreciáveis homens-garotos Herbert Bianchi (João), Flávio Barollo (Cláudio),  Alexandre Freitas (Maurício), Fábio Cadôr (Zeca)  e Flávio Baiocchi (Mauro).
Há que se parabenizar toda a equipe que compõe a Ficha Técnica, sem a qual seria impraticável a execução de um trabalho artístico tão primoroso.
     E por falar em primor, vale citar dois momentos: 
1º) aquele em que os irmãos acabam maquiando um ao outro sem o estereótipo que associaria a cena a um banal e simplista olhar homossexual, mas  (pelo contrário) aponta para algo ingênuo, infantil e lúdico ; 
2º) aquele em que se comenta criticamente como os leigos (de observação estreita e simplista) classificam/limitam o que vem a ser um ator. São realmente momentos imperativos (acrescidos de outros, claro) nos quais se pode avaliar a beleza do conjunto: texto, direção, atuação e cumplicidade dos artistas em cena,  principalmente conectados, enovelados à atenta plateia.
     Nanna de Castro provavelmente conseguiu êxito nesta dramaturgia, já que  - como revelou ao Jô Soares (entrevista: 06/09/2010) - teve seus primeiros passos na arte de escrever, parodiando os grandes cronistas, através da conhecida, influenciável e indispensável coleção PARA GOSTAR DE LER.                Portanto, tendo esse primeiro significativo impulso, presenteia os atores e espectadores com esse Novelo que nos leva a afirmar (sem titubear) que  tal espetáculo foi feito para Gostar de Entreter e de se Ver.
     Que a Companhia cumpra a sua temporada com louvor e estenda-a (por favor!) a fim de que os Deuses do Teatro providenciem ao elenco e ao público mais uma (ou muitas outras possibilidades) de  admirável representação-reflexão de divertido (embora doído)  novo elo.

LUIZ LÍBANO - 29/11/11 -  

(Luiz Líbano é professor, escritor, cantor, resenhista e muitos outros istas)

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