quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Antro Diálogos: Novelo

Antro Diálogos: Novelo: "

MINHA MAIOR FELICIDADE NAS SATYRIANAS
Por Luísa Valente

Espaço dos Parlapatões
17h- "Novelo", de Nanna de Castro
Direção: Zé Henrique de Paula
Elenco: Alexandre Freitas, Elvis Shelton, Fábio Cadôr, Flavio Baiocchi e Flavio Barollo

Cinco homens fazem tricô juntos em uma sala. Essa cena, que por si só gera estranhamento ao mesmo tempo em que enternece a platéia, acontece na sala de espera de um hospital público. Os cinco homens são cinco irmãos de uma família desconjuntada pela vida, que agora se reencontram ao receberem a notícia de que um homem que pode ser seu pai está na UTI.
Minha avó, mãe de cinco filhas e dois filhos, sempre diz: "vocês nunca tem tempo para me visitar, mas no dia em que eu morrer vocês virão correndo pra cá. E vão ter que viver sem o meu arroz doce, porque vocês não sabem fazer um arroz doce igual ao meu". A vida tem dessas coisas.
Os cinco irmãos fazem o tricô que a mãe, anos antes, quando eles ainda eram crianças e moravam juntos, lhes ensinara a fazer. A dor da perda é amenizada por costumes que remetem ao ente querido, que fazem juz a sua memória, por mais prosaicos que esses costumes possam ser. E assim fazemos tricô, arriscamos um arroz doce , mesmo que de um jeito meio torto.
O tricô, o tricô no reencontro, parece ser uma via de acesso a um passado de irmãos que já não pode ser visto no presente de homens crescidos e marcados pela experiência da vida de todo dia.
O mesmo espaço da sala de espera do hospital - quatro cadeiras e um retângulo delimitado por uma fita branca no chão - se transforma, pela iluminação e descontrução dos atores no espaço da infância.
Nesses momentos, temos a oportunidade de ver os mesmos personagens em um tempo onde os mecanismos de defesa não eram ainda tão atuante, onde os medos se expressavam livremente, onde a espontaneidade ocupava o lugar de gestos e pensamentos comedidos. Vemos como seus corpos agiam no espaço antes de se tornarem enrijecidos, antes de constituirem o corpo-memória que nos é mostrado no tempo presente da peça. Vemos, por exemplo, que o adulto alcoólatra foi um dia uma criança frágil mas com o olhar bastante atento à mãe que "não gostava dos filhos" e que começou a beber quando seu pai sumiu de casa; vemos de onde vem a dor de estômago do irmão mais velho, que descreve sua agonia como um "cigarro aceso engolido",o que queima em seu estômago são as responsabilidades das funções de pai, mãe e marido que ele assumiu de maneira brutal aos doze anos; percebemos que ao irmão intelectual e homossexual não foi permitido adentrar, quando criança, no "quartinho" cheio de livros do pai e que, adulto, é no mundo desse quartinho que ele vive longe dos irmãos, sem conseguir se identificar com eles, sem conseguir sequer receber um carinho do irmão mais novo. Para se distanciar do padrão de desintegração de relações primárias que agredia sua sensibilidade, aprendeu a rejeitá-lo a ponto de se considerar um outro completamente diferente, sem ligações com esse padrão que por anos foi o de sua vida. Outro irmão, o hoje adulto milionário que cultua seus bens materiais mais do que sua esposa foi uma criança provocadora e extrovertida que não teve muitos incentivos a valorizar seus iguais, tampouco teve muitos momentos de prazer com esses e, talvez, por isso, tenha encontrado em tudo que o dinheiro pode comprar fontes de felicidade mais seguras e imediatas do que nos homens. Vemos por fim, que o irmão mais novo teve a sorte dos irmãos mais novos e hoje é um adulto mais leve do que seus outros cinco irmãos, apesar de se sentir culpado por não ter nascido menina, para desespero do pai. Cinco irmãos, com cinco visões diferentes para suas histórias, cinco modos de agir diante delas. Cinco homens, com cinco visões de mundo diferente, cinco modos de agir no mundo.
Não pretendo psicologizar a peça, não teria nem capacidade para isso. Mas, se entendermos a psicologia como uma das personagens do cineasta Mike Leigh a define em "Garotas de Futuro", como o estudo do comportamento humano, entenderemos porque o texto, a encenação e os atores são tão brilhantes. Eles se permitem, sem receios, se entregar à algo cada vez mais raro no teatro contemporâneo: psicologizar os personagens, no melhor sentido do termo, adentrar no âmago do que move os personagens, de como pensam e agem, dos porquês de serem quem são do jeito que são e não de outro jeito. Nada contra experimentar outras formas de constituir personagens e a ação dramática, mas será que talvez nós, que nos propomos a fazer teatro hoje, não estamos evitando o psicologismo por outro motivo que não seja que o de que ele é demode, próprio do que se chama de teatro convencional?
"Novelo" mostra o quão difícil é levar o estudo do comportamento humano a sério e o desafio de colocá-lo em cena sem ceder ao melodrama. Mostra como é necessário, nessa empreitada, um texto inteligente e sensível como o de Nanna de Castro, de atores entregues, maduros e talentosos como os do elenco, e de um diretor execpional que é o Zé Henrique de Paula, de todos aqueles que pensaram nesse espetáculo em seus pormenores. Se tem uma coisa que eu odeio na crítica - como já disse em outra resenha - é o culto ao gênio, mas eis me aqui, mais uma vez, dando vazão à sastifação inenarrável de uma atriz que assistiu uma peça apaixonante. Sim, eu sei, estou me perdendo em minha subjetividade, mas o que fazer quando a peça nos conduz num caminho sem volta e o distanciamento é pulverizado pela magia do jogo teatral?
Em certo momento, no fazer do tricôt, um dos irmãos fala: "tem sempre um fio que solta, aí escapa, vai soltando tudo... é incontrolável". Esse é o movimento da peça, esse é o movimento de quem a assiste. Um suspiro no início da peça, com os irmãos tricotando, e tudo vai se soltando, é incontrolável.
A peça deve reestrear o ano que vem. Que assim seja!"

Nenhum comentário:

Postar um comentário